Valor Econômico
Argentina e Brasil avançaram ontem nas negociações para um novo acordo no setor automotivo, que prevê o livre comércio de automóveis, peças e partes entre os dois países a partir de 2013. Representantes dos dois governos reuniram-se ontem e acreditam ser possível concluir, até o início de junho, um acordo com as novas regras de comércio bilateral no setor. Os negociadores discutem ainda o mecanismo de controle de comércio durante esse período, o chamado flex, pelo qual há um limite para as exportações de um país ao outro, proporcional às importações originadas do sócio.
Hoje, o flex equivale a 1,95. Argentina ou Brasil podem exportar, um ao outro, até 1,95 vezes o que importam do sócio. O atual acordo automotivo entre os dois países, que se extingue em junho, levaria ao fim do flex, e ao livre comércio, como gostaria o Brasil. Mas, baseada no grande déficit comercial entre os dois países, de US$ 4 bilhões anuais (neste ano foi de 1 bilhão até abril), a Argentina reivindicou a extensão do acordo.
Os argentinos querem um flex diferenciado, pelo qual poderiam exportar mais importando menos do Brasil, enquanto os brasileiros teriam limites menores. O Brasil parece disposto a aceitar esse flex duplo, desde que não seja alterado o índice de 1,95 para o país, e, de preferência, ele caia com o tempo.
A maior queixa dos argentinos é o grande déficit no comércio de autopeças, que aumenta proporcionalmente ao crescimento das exportações de automóveis lá, fortemente dependentes de peças de fornecedores externos, inclusive do Brasil. Os brasileiros argumentam que também têm déficit no comércio de autopeças, de US$ 10 bilhões, quando computadas as transações com o resto do mundo. Ambos os países querem atrair investimentos do setor para seus mercados. O temor de que os investidores dêem preferência ao Brasil, montando aqui bases de exportação para o continente, é uma das maiores fontes de resistência argentina ao livre comércio.
Segundo um executivo do setor, o setor privado gostou da idéia de fixar um prazo de cinco anos para o acordo, o que permite planejamento, já que esse é o tempo para amortização dos investimentos no setor. Para se assegurar de que a Argentina se compromete com a liberalização do comércio no setor após esse período, a equipe brasileira, chefiada pelo secretário-geral do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, sugeriu que o acordo tivesse a vigência de seis anos, com o livre comércio a partir do sexto ano. A proposta foi bem recebida do lado argentino.
Os brasileiros também querem que a transição para o comércio livre comece antes do fim dos cinco anos, o que enfrenta resistência dos argentinos. Os brasileiros já aceitaram, porém, a criação de um mecanismo de monitoramento trimestral de comércio e investimentos para acompanhar eventuais distorções. Não ficou claro o poder desse mecanismo, que, segundo preferem os argentinos, poderia levar à revisão do acordo em caso de “desequilíbrio” no comércio ou na distribuição de investimentos do setor entre os dois parceiros. Em 28 de maio, haverá nova reunião em que se espera concluir o acordo, a tempo de ser formalizado entre os presidentes na reunião de cúpula do Mercosul, na Argentina, no fim de junho.
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